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O cartaz
colocado na frente do toldo de listras vermelhas desbotadas e brancas,
cheio de remendos, dizia que ali estava o Grande Circo Europeu Irmãos
Bartolleti & Pompallazini e que, de grande mesmo, só tinha o nome e a
pobreza.
O elenco
todo era formado pelas duas famílais, nada mais que nove pessoas que
faziam de tudo. Andavam no arame, comiam fogo, jogavam argolas, faziam
mágicas, davam cambalhotas, armavam as barracas, cobravam os ingressos,
vendiam as pipocas, varriam o picadeiro...
Pompallazini era o palhaço, Bartolleti o ilustre apresentador do
"grandioso espetáculo", como ele costumava chamar a pantomima que há anos
representavam pelo humilde interior do país.
O grande
momento do show era o leão Simbá que, apesar da idade avançada e da
magreza demonstrada, ainda saltava entre arcos de chamas e andava em duas
patas, sob os estalos nervosos do chicote de Marinivalda Pompalazini,
esposa do palhaço, para espanto geral do respeitável público - sempre
pouco é verdade, mas nem por isto menos respeitável.
Os dois
sócios nasceram na mesma noite escura de inverno, debaixo da lona fria do
circo, no meio de um espetáculo, ao som festivo da fanfarra e o aplauso da
plateia. Na verdade eram primos, mas diziam-se irmãos, pois foram sempre
criados juntos. Porém, apesar da mesma criação eles eram muito diferentes
entre si. Pompallazini era um sujeito muito alto e extremamente magro,
parecia um caniço de bambú; estava sempre calmo, era conciliador e por
força de profissão, tinha sempre pronta uma anedota para desanuviar
qualquer ambiente por mais carrancudo que fosse. Bartolleti já era de
baixa estatura, bem atarracado, ventre avatajado, eternamente nervoso,
pessimista, irritadiço, desgostoso com a vida, dono de sorrisos raros e
frequentes mal-humores. Por serem antagônicos, complementavam-se...
Os
negócios iam mal, as última semanas haviam sido de um poderoso fracasso.
("Retundante insucesso", como a Zelinda gosta de dizer em nossos frugais
cafés da manhã...) O tal do respeitável público tinha desaparecido da
plateia que teimava em permanecer vazia. A fome rondava, soturna, por
entre as lonas rasgadas do circo. O velho Simbá, já não comia há uns dois
dias... Onde arrumar tanta carne para ele?... Os gatos da vizinhança já
estavam rareando - os moradores estavam alarmados com uma estranha
epidemia felina que vinha fazendo com que eles sumissem misteriosamente,
sem deixar rastros.
Tudo
aconteceu muito depressa, as mulheres com os filhos haviam ido até a
cidade para ver se arranjavam algo para comer. Os dois sócios ficaram
cuidando das coisas, pensando em alguma saída mágica para tão drástica
situação. A moral estava baixa e as idéias eram poucas. Naquele momento,
discutiam sobre a possibilidade de fazerem um "desfile monumental" (vejam
só a que ponto chega o delírio) pelas ruas da cidade chamando a todos para
uma pantomima dramática que encenavam quando criança, no circo dos pais.
Você quer saber o titulo? Bem, chamava-se "O Crime da Mulher do Barbeiro".
Prometeriam ao público muitas lágrimas, muita emoção, muita cena de
sangue, estavam os dois ali pensando em coisas capazes de arrepiar até
morcegos...
"Quem
sabe se assim vai".... Comentavam eles, quando ouviram as risadas
travessas dos moleques da região. Mas, não se importaram, pois já estavam
acostumados com isto, afinal, todas as manhãs eles vinham espiar o velho
Simba. Ficavam do lado de fora da jaula desafiando o animal que nem se
dignava em mudar de lugar, só ficava ali, olhando-os com olhar de cobiça
e desejos carnívoros... As vezes lá vinha um rugido, só para impor
respeito. Mas qual, a cada dia os meninos ficavam mais ousados. Certo dia,
Marinivalda, teve que apanhar uma vassoura e correr com os meninos, que
com pequenas varetas incomodavam o sono do pobre e faminto rei da jaula.
Mas, como
dizia, estavam ali os dois primos, traçando seus planos, indiferentes às
risadas dos meninos, quando ouviram um baque metálico, surdo e conhecido,
que os fez estremecer.
A porta da
jaula fora aberta... a fera faminta estava solta.
Saltaram,
por puro instinto e correram para fora.
Ali
estava Simba, acuando três meninos apavorados contra o enferrujado
caminhão Ford, 1973. Parecia que o velho leão, revigorado pela liberdade,
sorria enquanto escolhia quem seria o seu primeiro petisco. O grito
assustado dos primos distraiu o leão, dando tempo para os três meninos
atirarem-se sob o caminhão.
Então a
fera, vendo fugir a presa fácil, voltou-se contra os primos e avançou...
Como uma mola, num malabarismo que faria delirar a mais indiferente das
plateias, os dois saltaram para um minúsculo barracão de madeira que,
atrás da lona do circo, fazia às vezes de banheiro. Do lado de fora, ficou
a fera rugindo e babando. Dava violentas patadas nas paredes do
improvisado esconderijo, fazendo-as tremer, prestes a desabar.
Bartolleti se desesperou... Gritava que estavam perdidos... que morreriam
comidos por um leão caduco... que não era justo... que Deus era injusto...
e como um maluco começou a bater com sua cabeça contra a parede piorando
ainda mais a situação de precária de estabilidade do pobre barraco... e
gritava: "Ai meu Deus... Ai meu Deus..."
Pompallazini, depois que fechou a porta atrás de si, não disse nada...
esperou um momento, enquanto seu primo chorava e se descabelava. Respirou
fundo, fechou os olhos e ficou ali, rezando para seus santos de infância,
indiferente ao terrível pandemônio que o mundo ao seu redor havia se
transformado.
As
paredes tremiam e mostravam que cederiam a qualquer instante. Simbá estava
ficando cada vez mais impaciente... os pregos das madeiras se soltavam, as
taboas velhas se desconjuntavam, todo o barraco agora balançava numa dança
macabra... Os gritos de terror do pobre Bartolleti quase encobriam os
rugidos ferozes e famintos de Simbá... A situação era realmente crítica.
Quando
tudo parecia que ia vir a baixo, o palhaço, parou de rezar, respirou mais
uma vez e com um gesto decidido, para total desespero do aterrorizado
apresentador, abriu a porta e enfrentou a fera. Nunca antes tivera coragem
de ficar frente a frente com ela. Só sua mulher tratava do animal, ninguém
mais ousava.
Simbá,
parou de rugir e ficou olhando espantado para a figura de Pompallazini,
que até parecia maior, parado ali entre os umbrais da porta do banheiro,
olhando fixamente para o leão. O palhaço não deu tempo para a fera se
recompor da surpresa, avançou firme em sua direção e com voz forte, foi
gritando: "Já prá jaula seu leão safado... Mas que vergonha seu moleque...
Chega de palhaçada... Toca já pro seu lugar.. Vamos Simbá, pra jaula...
Vamos logo seu leão fedorento que a minha paciência com você está
curta...... Pro seu lugar..."
Simbá,
submisso, abaixou a cabeça, voltou sobre as suas patas, retornando como um
gatinho manso para a sua jaula. Num pulo, Pompallazini agarrou a porta e
trancou a fera, sem dar tempo do velho leão faminto fazer maiores
reflexões sobre o assunto...
Bartolleti, com a cabeça muito doida e esfolada, porém, feliz por ter
saído com vida de tão crucial aventura, mais os meninos que saiam
eufóricos de baixo do velho caminhão, vendo a fera enjaulada, elevaram as
mãos para o céu agradecidos, começaram a beijar o chão e os pés do palhaço
Pompallazini, gritando: Milagre... Milagre... Milagre...
Os
neurônios se comunicam através de suas terminações, para enviar mensagens
ou para reter informações.
Porém, o
curioso, é que nunca se encostam efetivamente uns nos outros. Isto
acontece porque entre eles existe um microscópico espaço chamado pelos
especialistas de "sinapse". Eles são como pequeninos botões que fazem
todas as intermediações necessárias.
As
sinapses tem ainda uma segunda missão muito importante, funcionar como
acumuladores de energia para os neurônios. Sempre que uma célula nervosa
necessita de energia extra para realizar uma determinada tarefa, vai até
buscá-la.
Vale
colocar aqui que, nós do Imagick, damos o nome de "energia psíquica" a
esta energia acumulada nas sinapses e utilizada pelos neurônios em suas
funções específicas.
Pois
bem, continuando, a quantidade de enegia psíquica acumulada nas sinapses
não é um fator constante, pelo contrário varia a cada instante de acordo
com os estímulos nervosos a que os neurônios são submetidos.
A grosso
modo podemos dizer que quanto maior a agitação mental, menor a quantidade
de energia acumulada. Por outro lado, quanto menor for o nível de agitação
psíquica do indivíduo, maior será a concentração energética nas sinapses.
Uma
coisa é certa, quanto mais energia psíquica estiver acumulada entre os
neurônios, maior será a capacidade mental e psíquica do indivíduo.
Na nossa
história, Bartolleti, ao se desesperar e entrar em verdadeiro parafuso
psicológico, aumentou significativamente a sua agitação mental, esvasiando,
consequentemente, todas as reservas de energia psíquica disponíveis nas
sinapses, que lhe permitiriam encontrar uma solução conveniente para o seu
tão aflitivo problema.
Pompallazini foi mais esperto. Ao se concentrar, respirando fundo e
fazendo orações, abaixou a sua turbulência mental, entrando naquilo a que
chamamos de "EAC" - estado alterado de consciência - ocasião em que os
seus níveis de energia psíquica aumentaram criando as condições
necessárias para que as suas capacidades psíquicas pudessem se manifestar
com facilidade, permitindo ele operasse algo a que os demais consideraram
um verdadeiro milagre.
Ah!...
Sim... Esqueci de contar...
Naquela
noite outro milagre ocorreu.
A
história do leão fujão correu pela cidade como um rastilho de pólvora (sei
que a metáfora é velha, mas cai muito bem aqui) e quando começou a
escurecer e as luzes do circo foram acesas uma pequena multidão correu
para ver o palhaço milagroso...
...E
aquela foi a sua noite de glória...
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